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Guardiões do seu ambiente

O sistema de mapeamento do campo de refugiados de Kakuma encontra-se em constante evolução graças à dedicação dos seus residentes
A bustling market scene with colorful fabric canopies overhead, motorbikes parked along the dirt pathway, and people walking and shopping among stalls selling clothes and household goods.

Na extensão árida do noroeste do Quénia, o campo de refugiados de Kakuma transformou-se numa comunidade extensa, com mais de 300 mil pessoas deslocadas provenientes de mais de 20 países. Criado originalmente em 1992 para dar abrigo a jovens que fugiam da guerra no Sudão, o campo é hoje o maior de África, abrangendo cerca de 15 milhas quadradas (40 km), com residentes oriundos do Sudão do Sul, da Somália e de outros países vizinhos.

Durante anos, os mapas do campo de refugiados estavam gravemente desatualizados, dificultando a prestação de ajuda, o planeamento de infraestruturas e a resposta a emergências. A disposição irregular do campo e a diversidade de tipos de abrigo tornavam os métodos tradicionais de mapeamento particularmente difíceis. No entanto, este desafio deu origem a uma colaboração notável que redefiniu o que a tecnologia humanitária pode alcançar.

“Acredito que a colaboração foi fundamental, porque cada pessoa trouxe algo único para o projeto”, afirma a Dra. Simone Fobi Nsutezo, Cientista de Investigação Aplicada do Microsoft AI for Good Lab.

No centro da colaboração para atualizar o sistema de mapeamento do campo de refugiados de Kakuma esteve um conjunto de três pilares de inovação. Cada parceiro contribuiu com competências únicas e, em conjunto, geraram um impacto real. O Hive do ACNUR — o laboratório de inovação da Agência da ONU para os Refugiados — identificou os desafios enfrentados pelo campo, enquanto a Equipa Humanitária do OpenStreetMap (HOT) assegurou a recolha essencial de dados no terreno e uma integração vital com a comunidade.

Aerial view of a sprawling refugee camp with rows of small, makeshift shelters and buildings, separated by a dirt road, under a partly cloudy sky in a dry, arid landscape.

Amplificar o impacto através da colaboração da comunidade

As forças orientadoras foram o desejo de realizar um trabalho verdadeiramente relevante, a paixão pela deteção remota e por imagens de satélite, e o objetivo de responder às necessidades das pessoas refugiadas. O mapeamento manual, embora valioso, era lento e exigia muita mão de obra, mas a equipa do Microsoft AI for Good Lab identificou uma oportunidade para que a IA e a aprendizagem automática ajudassem a fornecer aos mapeadores humanos as ferramentas de que necessitavam.

“Depois de treinar um modelo com uma pequena quantidade de dados, é muito rápido obter previsões para novas áreas. Dispomos de código open source para mapear painéis solares, edifícios, tipos de telhados e infraestruturas de saneamento, e qualquer pessoa pode utilizá-lo de forma independente”, afirma a Dra. Amrita Gupta, Cientista de Investigação Aplicada do Microsoft AI for Good Research Lab.

Para compreender melhor as condições no terreno, a equipa de mapeamento da HOT documentou indicadores visíveis de acesso à eletricidade, como painéis solares e linhas elétricas, existentes no campo. Embora a maior parte da eletricidade seja gerada localmente em edifícios individuais, esta informação ajudou a criar uma visão mais clara de onde os serviços essenciais poderiam operar de forma realista e a destacar lacunas no panorama mais amplo das infraestruturas. 

O objetivo era ajudar o campo a ser percecionado menos como um abrigo temporário e mais como um assentamento permanente. O mapeamento foi o primeiro passo para garantir que o projeto permanecia ancorado nas necessidades humanitárias. O compromisso do projeto com o acesso aberto significou que todos os dados e imagens gerados estariam livremente disponíveis. Isto ampliou o alcance para além de Kakuma, promovendo a inclusão das pessoas refugiadas. 

É toda a comunidade. Ninguém foi esquecido.
Akso Kaposho Mupenzi
Contribuidor de mapeamento e refugiado

Ao operar no terreno, no Quénia, a equipa da HOT trouxe uma dimensão humana ao projeto. A recolha de dados foi inteiramente conduzida por pessoas locais, desde a apresentação do projeto até à operação de drones, e pessoas refugiadas no campo ajudaram a identificar manualmente elementos da área. As equipas da HOT utilizaram drones para captar imagens aéreas de alta resolução e realizar validações no terreno com mapeadores refugiados. Mais importante, formaram e capacitaram membros do campo de refugiados, transformando a recolha de dados num verdadeiro exercício de contribuição comunitária.

Os refugiados tornaram-se mapeadores, intérpretes e guardiões do seu próprio espaço, criando dados de referência no terreno. O seu conhecimento local acrescentou detalhe e precisão, conferindo-lhes a apropriação do processo. A equipa da HOT procedeu à etiquetagem manual de 10 milhas quadradas (16 km²) de imagens, criando um conjunto de dados de treino robusto para o desenvolvimento de IA, que pode ser mantido atualizado à medida que o campo evolui.

“A IA foi utilizada principalmente para correspondência de padrões e poupança de tempo. Ajudou-nos a identificar sinais nos dados que seriam difíceis de detetar manualmente”, afirma a Dra. Gupta.

Com base nas imagens detalhadas, etiquetadas pela comunidade, recolhidas no campo de refugiados, o Microsoft AI for Good Lab desenvolveu modelos avançados de aprendizagem automática recorrendo a serviços de cloud do Azure. Estes modelos foram treinados para identificarem com precisão uma vasta gama de elementos — edifícios, blocos de saneamento, painéis solares em candeeiros de iluminação pública e em telhados, e também, componentes da rede elétrica, como postes e linhas — refletindo a diversidade e a irregularidade da paisagem do campo.

Ao conjugar a especialização local com a IA, a equipa conseguiu ultrapassar os desafios colocados pelas estruturas únicas do campo de refugiados, permitindo uma análise rápida e o reconhecimento de padrões que seriam difíceis de alcançar manualmente. Todos os modelos e conjuntos de dados foram disponibilizados como open source no GitHub, capacitando programadores, investigadores e organizações humanitárias em todo o mundo para desenvolver este trabalho e adaptá-lo a outras comunidades em situação de necessidade.

Um testemunho de possibilidades

Este projeto de mapeamento open source demonstra de que forma a colaboração pode ajudar a estabelecer uma base sólida para o desenvolvimento sustentável. À medida que os limites administrativos do município de Kakuma evoluíram, os dados espaciais precisos tornaram-se essenciais para o planeamento a longo prazo e para a prestação de serviços em toda a cidade e nos assentamentos circundantes, assegurando que quaisquer decisões futuras de anexação ou integração assentam na realidade.

O GitHub é o ponto de partida do próximo capítulo deste projeto, ligando programadores, tecnólogos cívicos e cientistas de dados a desafios humanitários do mundo real. Tudo o que foi aprendido passou a integrar uma base de conhecimento global dedicada ao apoio a pessoas refugiadas. Ao partilhar este código de forma aberta, qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode desenvolver o trabalho existente, melhorá-lo e utilizá-lo para gerar impacto positivo. A história do campo de refugiados de Kakuma é prova do que é possível quando a visão humanitária se cruza com a inovação.

Ninguém conhece melhor uma comunidade do que as pessoas que nela vivem. A IA não as substituiu, mas ampliou as suas capacidades.
Juan M. Lavista Ferres
Diretor de Laboratório do AI for Good Lab, Microsoft